Tuesday, October 13, 2009

Superbad - É Hoje!

Superbad, 2007 – Direção:Greg Mottola – Elenco:Jonah Hill,Michael Cera,Seth Rogen,Bill Hader.

Se você ouvir da boca de alguém que esta é a melhor comédia da década, ao invés de ficar dando uma de pensador e imaginar se é exagero ou não corra, mas corra o quanto antes atrás desse filme, porque provavelmente não é exagero de quem falou.

Esse filme de 2007 pode ter ganhado tantos fãs secos por uma série de motivos. Pode ter sido pelas maravilhosas referências ao mundo pop (ou seria nerd?), ou pela honestidade que transborda em tela, ou pelo ótimo timing cômico que o diretor demonstrou.

O filme começa de uma maneira realista e por vezes assustadora, mesmo pra quem vê besteiróis cheios de palavrões. O começo deste tem tantos que depois do diálogo inicial entre Seth e Evan a platéia pode ter várias reações. Ou podem querer parar de ver o filme na hora, ou podem rir a beça com a tirada que Evan dá em Seth depois dele falar dos seios da sua mãe, ou pode ficar curioso pra saber o que virá daqui pra frente depois desse banho de palavrões, ou pode parar e pensar que american pie é para bichas. Esse diálogo inicial pode ter palavrões, falar de pornografia e até mesmo falar dos peitos da mãe do outro, mas por mais politicamente incorreto que seja ele, é honesto até o talo.

E é essa honestidade que o filme destila o tempo inteiro. Honestidade? Jovens falarem de sites pornôs e seios maternos? Sim. Qual é o jovem no seu ultimo ano de escola que não fala besteiras, palavrões, pornografia e toda a gama de besteiras que eles aprenderam durante todos os outros anos na escola. É fácil de mais se identificar com os personagens, ainda mais se você é nerd, tímido, tarado, bebe, gosta de meninas que não te correspondem (ou você que acredita nisso), e por ai vai. O filme busca um realismo tão cru que acaba encontrando, o que o deixa mais rico e cativa muito mais a platéia do que personagens vazios das outras comédias diárias que levam jovens cheios de hormônio e sem pensamentos na cabeça ao cinema.

Temos três personagens extremamente carismáticos e reais. Seth é daquele tipo de nerd que sempre fala, fala e fala para os amigos como se fosse o todo poderoso e nas verdadeiras horas só da mancada. Evan é o nerd completo mesmo, tímido, honesto de mais, respeita as mulheres que gosta, anda de cabeça baixa, joga videogame, é fã de quadrinhos (sim, é só observar em seu quarto, tem um pôster do Goon lá), enfim é o nerd. O terceiro é Fogell, outra grande figura nerd que usa o mais famoso utensílio nerd: óculos. E é estranho e tudo mais. Junte os três e terá uma amizade comum que vemos na escola (ou convivemos) todos os dias. É claro que a relação de Evan e Seth é mais profunda, tanto pelo fato de se darem melhor que pelo fato de se conhecerem desde os oito anos. Fogell é apenas um amigo que combina com eles , mas que ainda sim tem uma boa relação com eles.

Um evento importante preocupa muito Seth (talvez o mais sentimental dos três): a ida para a universidade. Ele nunca foi um garoto muito inteligente, o contrário de Evan e Fogell (os grandes nerds mesmo), e por isso acaba tendo que ir para outra universidade. Cara, esse gesto é tão bonito. Sim, o diretor usar disso para nos mostrar o quanto é difícil se separar dos amigos quando vamos pra universidades. Eu mesmo estou na mesma rota dos três, último ano e provavelmente irei para uma faculdade diferente das que meus amigos devem escolher. E o que Seth sente, é o que sinto. Sinto sim que ficará um vazio e muito grande, pois como ele mostra em determinado momento do filme, parece ser impossível viver o resto dos meus dias sem meus amigos do meu lado, ele mostra isso exatamente quando Evan o deixa comendo na mesa sozinho após uma discussão sobre a garota que ele gosta. Após Evan o deixar na mesa, Seth olha para os lados com medo mesmo, com uma expressão de vazio, de estar incompleto. Isso é mais do que honesto pra mim, que também sinto o mesmo quando estou só no intervalo na escola, parece que estamos vulneráveis a tudo, e como acontece com o Seth, um brutamontes pode passar a qualquer momento e derrubar nossa mochila ou algo pior.

E o “verdadeirismo” de superbad consiste nisso, em gestos que por seu silêncio falam o real, o sentimento verdadeiro que uma bobeira qualquer como american pie insiste em evitar. A trama decide se firmar em dois lados separando os personagens para abordar de um lado, a amizade segundo o sentimento verdadeiro e do outro lado, a amizade segundo diversão e remorso.

Vamos falar do porque de “amizade segundo diversão e remorso”. Fogell consegue uma identidade falsa e sendo assim é obrigado por Seth a comprara as bebidas que a garota que ele gosta pediu para que comprasse. Sendo assim consegue a identidade fácil, fácil. Só que tem pequenos problemas, um ele coloca que tem vinte e cinco anos nela, outro, o nome está simples e unicamente como McLovin. Sim, sem sobrenome ou primeiro nome, apenas McLovin. O que parecia ser suicídio vira uma das maiores reviravoltas da década: Fogell (só vou chamá-lo de McLovin daqui pra frente), vai comprar as bebidas, que não são poucas, e até consegue chegar ao caixa e passar todas as bebidas, mas de tão nervoso que um jovem normal pode sentir por estar com uma identidade falsa no bolso deixa parecer que é mais jovem e faz a atendente do caixa pedir sua identidade (que esqueci de mencionar, é do Hawaí). Enquanto ela devolve a identidade do Sr. McLovin por parecer realmente vir do Hawai e ter vinte e cinco um assaltante entra na loja soca a cara do McLovin e leva tudo que tinha no caixa deixando uma moça desesperada aos berros e ligando para a policia. Os policiais são meio atrapalhados e na hora de interrogar Mclovin e notar que este esta se tremendo todo, também pedem sua carteira de identidade e notam algo, mas isso não nos é mostrado, um cochicha o ouvido do outro e logo em seguida dão gargalhadas e convidam McLovin a ir de carona com eles para não ter que pagar a passagem do ônibus. Nisso os policiais fazem McLovin estranhar desde o momento em que ligam a cirene apenas para não ter que esperar ao semáforo, pedem ajuda dele para prender um indigente bêbado que mijou em um bar todo, apostam quem esta mais bêbado usando o bafômetro, praticam tiro ao alvo e até fogem da polícia. Sim, da polícia. Agora porque de você ter citado “a amizade segundo diversão e remorso.” Ta certo que eu deixei a entender que eles se divertem, mas onde está a amizade e o remorso nisso? Está em que, ao término de tudo, lá no finalzinho do filme, quando McLovin consegue fugir dos policiais com as bebidas da festa e seus dois outros amigos que não encontrava desde a loja de bebidas sabe-se la porque, chega na festa que ficaram de ir, consegue coragem para chegar na menina que venera (afinal, depois de fumar e praticar tiros com policiais tudo parece ficar mais fácil), e consegue levar essa menina pra cama com sua maravilhosa identidade falsa que parece enganar todo mundo e até começa a fazer sexo com ela só que é interrompido pelos seus grandes amigos policiais, um deles desesperado por ele os ter abandonado e fugido. E é ai, que os policiais nos revelam o que tinham cochichado lá no começo do filme quando pegaram a carteira falsa de McLovin. Revelam que sabiam que ele não tinha vinte e cinco anos e que queriam apenas fazer com que ele não odeie os policiais como eles odiavam quando mais jovens. Esse sentimento de remorso por terem odiado policiais e achado que eles não podiam ser legais os levou a criar um laço de afeto tão grande com McLovin que é até bonito ver eles ajudando o garoto a ficar com a imagem mais parecida com de um macho de verdade e queimando um carro de policia e dando uma arma para Maclovin. Relações como essa são verdadeiras, por mais irreais que pareçam.

O outro lado da trama que citei como sendo “amizade segundo o sentimento verdadeiro” fica com Seth e Evan. É um lado mais simples, com tramas menos irreais, mas é o lado mais verdadeiro do filme inteiro. Seth e Evan passam por maus bocados que nem vou citar aqui. O importante é que quando os policiais chegam na festa e espantam todo mundo, Seth, mesmo caindo na manguaça após ter se declarado para Jules que achava impossível ficar com ela sem ela estar bêbada, e descobrindo que não era tão impossível assim (Seth é gordo e Jules é linda, ruiva, gostosa, nem ele acredita que ficaria com ela). Seth decide ajudar Evan a fugir dos policiais e como Evan bebeu pra caramba pra poder se igualar a Becca, que ele é “xonado”, e descobrir que não era desse jeito que imaginava fazer sexo pela primeira vez e ainda por cima com a Becca. Decide ajudá-lo carregando no colo por uma imensidão de quadras, decide fazer isso, pelo simples fato de amar seu amigo e não querer que ele se ferre ou não querer ficar só. Passado um tempo no colo de Seth, que aguentou esse tempo todo seu peso, Evan acorda e o chama para ir dormir na sua casa. Pronto. O momento mais honesto da história do cinema em termos de amizade ocorre ai. Deitados um do lado do outro, Seth e Evan se abrem pela primeira vez durante toda sua vida e decidem falar que se amam. Sim,que se amam. É um diálogo divino e tocante que por estar em um filme de comédia pode não ser levado a sério, mas que no findo de seu cerne é muito verdadeiro e expressa o que todos nós, que temos amigos (acho todo ser social tem), amigos de verdade, daqueles de ir dormir fora e tudo mais queremos falar um pro outro e como eles mesmo pronunciam “eu não tenho vergonha de falar”. Isso devia ocorrer com cada jovem que está prestes a se formar, com cada criança que recebeu ajuda de um menino que nunca conheceu, de cada ser humano que sente afeto pelo outro e sempre sabe que poderá contar com ele.

Depois disso tudo ainda sobra tempo para o diretor nos mostrar o quão real pode ser uma amizade. No shopping, os dois se encontram com “suas” garotas da noite anterior e cada uma chama seu par para fazer compras com elas. Claro que eles topam, só que percebem que dali pra frente, estarão em universidades diferentes, em locais diferentes e que não da mais pra um depender do outro, não da mais pra um sair com o outro, não da mais pra um pagar o lanche do outro, não da mais pra rirem das piadas um do outro, não da mais pra ficar junto. Pois a vida é assim, temos que criar independência e nos livrarmos de nossos sentimentos para parecermos cada vez mais com animais para enfim sobrevivermos sozinhos e sem dependência. E o diretor nos mostra tudo isso com o simples gesto de deixar um no andar de cima do shopping e o outro descendo as escadas rolantes, e nesse momento nenhuma das garotas importam, nada importa, o que importa é que passaram uma vida juntos e que aquilo ali esta acabando ali, naquela escada rolante, com aquelas garotas, mas o olhar dos atores nos revela isso.

5/5

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